FINIS COITUM
SEM MIMOS
VIRAMOS DE LADO
DOR MIMOS

AMOR PEQUENO
ENTRE OS DEDOS
TOCAM OS LÁBIOS
BRIGAM AS PALAVRAS
COMO DIZER QUE
TE AMO???

MAIS UMA NOITE
PRA FICAR
PERDIDA
EM PENSAMENTOS
ENTRE A
MORADA
E O
LAR

Que saudades
dos seus sequilhos, mãe.
O pai sorrindo junto
com os passarinhos
e a vida simples
passando com os carros
e eu, meu Deus?
eu só queria amar.

OLHAR NOS OLHOS
TEUS
NÃO VEJO MAIS O QUE EU
VIA
...QUE SAUDADES DE
MIM...
TENDO CONSCIÊNCIA DE SUA PRÓPRIA IGNORÂNCIA, APAIXONOU-SE PELAS PALAVRAS DO MESTRE SÓ POR CAUSA DA SONORIDADE EM SUA BOCA...

De uma velha cadeira retirada do lixo, que um dia foi de balanço e hoje é de coceira, observo meu quarto de um ângulo diferente. Nos ouvidos, Chico; no rosto, o sol; na cabeça, a vontade de me apaixonar. No coração, um oco; nos olhos, sete graus de miopia sem óculos. E na boca, apenas o hálito da sopa que acabei de comer. São três horas, sexta-feira. Entre a janela e a porta existe um vão preenchido por parede. A janela não tem todos os vidros, dois deles deram lugar a radiografias dos meus rins. O rádio vai passando minha seleção de músicas do chico: passa de amores a bandas sem nem mesmo soluçar. Da direita para a esquerda, para onde as sombras das árvores estão se deslocando, passam pássaros sem me notar aqui, sentada. Não os distinguo, são pássaros, apenas pássaros, por mais que alguns deles se pareçam papagaios. Acho que não existem pássaros-papagaios no centro de Curitiba. Se forem mesmo papagaios, creio que está solucionada a questão fronteiriça que me divide entre o centro e o alto da XV. Chico pegou no meu ponto fraco. Já volto. Agora escuto "Orfeu da Conceição". O sol já começa a se por. Coloca uma camiseta. Fecho a porta. O som da rua que deixou de entrar me permite ouvir Vinícius recitando o monólogo de Orfeu. Apesar de sozinha, feliz. As sextas são sempre diferentes dos domingos...

CANSAÇO
AMOR DEMAIS
AMOR EM PEDAÇOS
SORRISOS BREVES
UM LONGO ABRAÇO

Dia estranho. As pessoas olham como se não me conhecessem mais. Tudo bem. Talvez eu não seja mais a mesma... Antigamente não me inspirava em Bukowski... Antigamente garotos não me ofereciam nem sequer uma bala melada guardada a semanas no bolso... e antigamente eles não receberiam um sonoro não. Bem, de qualquer maneira continuo não recebendo balas nem novas nem guardadas. Garotos continuam não olhando pra mim apesar de eu ser uma garota casada.
Continuo me inspirando em Bukowski, e volta e meia sento sozinha com um caderno em um lugar qualquer para analisar a fina flor da intelectualidade curitibana. A porta de um teatro, um café supercharmoso no inverno, uma praça atribulada de passantes. Regada a chocolates e conhaques, com seus cachecóis, tênis legais e conversas underground sobre assuntos inusitados e sem nenhuma importância. O chopp no Alemão continua o mesmo. Os teatros continuam com sua elite pensante que insiste em ignorar os pobres mortais que gostam de simplesmente ir ao teatro. As praças continuam com seus atribulados passantes mesmo que estejam reformadas. As mesmas pessoas passam por lá. Os mesmo assuntos, as mesmas cantadas, o mesmo vento frio... Mas agora nós temos os psiquiatras. Não há nada mais pra se ver. E o que nós vamos fazer? Vamos lá, cara... Pense bem! Ainda temos assassinos, estupradores, ladrões de carro, padres, loucos...
Volto pra casa cedo. Realmente não há nada mais para se ver. Recordo-me de algumas canções, escrevo um poema bobo em um guardanapo, termino de ver a peça, saindo do teatro um hippie com os dentes podres insiste para que eu compre um de seus ‘trabalhos’, nem respondo e vou pra casa.
Dia estranho. Tive a real e estranha sensação, sentada naquela poltrona do teatro, que as coisas não estavam bem. Não estavam mesmo. E não iriam estar nos próximos dois mil anos. E, simplesmente, não existe muita mudança em lugar nenhum. Eu continuarei sendo uma escritora de gaveta, com casa, filhos que ainda não foram planejados e Curitiba continuará sendo Curitiba. Com seus imprestáveis intelectuais e seus cachecóis. Na verdade, tanto faz. Acho que alguém deveria cuidar melhor de mim...

CLARA e ANA
Essencial
você
andando
de bicicleta
no meu quintal
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